segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Islândia: a revolução silenciosa

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A Islândia acabou o ano 2011 com um crescimento económico de 2,1% e em 2012 vai ter o triplo da taxa de crescimento esperada para a União Europeia. Após o colapso financeiro encontrou medidas inéditas para sair da crise e vai julgar os seus responsáveis.





O colapso.


Em 2008, a dívida da Islândia era nove vez o seu PIB, a sua moeda colapsa e a bolsa é suspensa depois de ter caído 76%. O país vai à falência e tem de recorrer a dois empréstimos, um do FMI de 2,1 mil milhões de dólares e outro dos países nórdicos e da Rússia de 2,5 mil milhões de dólares.


O FMI, como sempre, exigiu em troca medidas de "ajustamento" traduzidas em cortes nas despesas sociais. A população revolta-se, o que provoca a queda do governo e eleições antecipadas. O Partido da Independência, conservador, é substituído por uma coligação de partidos de esquerda, ecologistas e sociais democráticos. Um referendo rejeita o salvamento dos bancos privados e os principais bancos, Glitnir, Landsbankinn e Kaupthing, são nacionalizados.



Responsável ou bode expiatório?


Actualmente, vários responsáveis do sector bancários deverão ir a julgamentos por fraude e abuso de poder. O parlamento islandês nomeou uma comissão de inquérito, composta por dois filósofos e um historiador, para analisar o aspecto ético da crise, um atitude única e inovadora. 


O antigo primeiro ministro islandês, Geir Haarde, está actualmente a ser julgado por ter mal gerido a crise que provocou o colapso do sistema bancário do seu país. Arrisca-se a 2 anos de prisão se for declarado culpado. Uma comissão tinha proposto inicialmente culpar quatro pessoas.


Esta acusação de "negligência" e "violação das leis sobre a responsabilidade ministerial", do antigo primeiro ministro, é vista para a maioria dos observadores como a tentativa de encontrar um bode expiatório, outros vêm nela um acerto de contas político por parte dos seus velhos inimigos no poder, agora que o poder virou à esquerda.


O que parece estar em causa na responsabilidade da crise islandesa não é uma pessoas, mas sim de um conjunto de actuações de vários actores políticos, assim como de vários responsáveis do sector financeiro do país. 



Islândia: um "mau" exemplo.


A "revolução" islandesa é muito pouco badalada nos media oficiais, pois esta poderia servir de "mau" exemplo para outros países nas mesmas circunstâncias: recusa em pagar as dívidas de bancos privados, nacionalização e colocação sob controlo democráticos de três bancos, e nacionalização, para breve, dos recursos naturais. Esta revolução anti-capitalista poderia dar más ideias a outros povos europeus.
 

E tudo isto sem violência, sem um único disparo da polícia. Uma espécie de revolução silenciosa. É verdade que, a maioria das vezes a democracia directa só vive enquanto está na rua e desaparece quando se institucionaliza. Mas seja como for, a Primeira-Ministra islandesa, Johanna Sigurdsdottir, e o seu governo elaboraram um plano de rápido relançamento económico que parece estar a dar frutos. 


A Islândia continua assim, a ser um país inovador em vários aspectos: foi o segundo país do mundo a reconhecer o direito de voto às mulheres (depois da Nova Zelândia), o primeiro país a ter um chefe de governo homosexual, a ser um dos países mais seguros do mundo em termos de violência e a ter 100% de alfabetização.







http://www.pressegauche.org/spip.php?article9031

http://www.acp-eucourier.info/fr/content/ethique-et-finances

http://www.arretsurimages.net/vite.php?id=11942

http://www.lemonde.fr/europe/article/2011/09/05/islande-l-ex-premier-ministre-unique-coupable-de-la-crise_1568015_3214.html

7 comentários:

  1. Quem deveria ser também julgado é o trio das Agências e quem o segue cegamente, impondo sacríficios absurdos a um número enorme de pessoas enquanto poupam outras.

    Boa semana

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  2. Acho que os média já possuem tal eficácia que mesmo que se abrisse a essa realidade o povo optaria por ver "A caso dos segredos"... a manipulação de anos está a dar os resultados esperados... Derrotista? Não. Apenas constato que são eficazes os profissionais da manipulação

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  3. Um belo exemplo, sem dúvida. Mas convenhamos que é bem mais fácil fazer o que os islandeses fizeram num país com trezentos mil habitantes, ainda por cima habitado por gente letrada, em vez de por analfabetos funcionais, como Portugal.
    JM

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    1. Concordo que é difícil! Será impossível ?

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  4. É um facto que a Islândia tem menos habitantes do que Lisboa. Mas o modelo de um avião não é do tamanho do avião.
    Também é verdade que são gente letrada mas não esqueçamos que são nossos parentes porque descendentes dos Celtiberos que habitaram a antiga Lusitânia - e se miscegenaram - desde 6.000 anos a.C. até à invasão pelo Império Romano, cerca de 300 anos a.C.
    Convém não esquecer o estado de pobreza e miséria em que estavam em 2008 quando a própria Ilha (Islândia) esteve à venda e ninguém a comprou.
    Se Portugal continuar pelo rumo em que está, mais tarde ou mais cedo o povo, com fome, sai à rua e Portugal desmembrar-se-á em várias Islândias que, todas juntas, dão uma só.

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  5. Mesmo que o povo votasse a favor dos seus interesses, isto é, no BE e na CDU, pouco podiam fazer
    dentro do espartilho ( ou colete-de-forças ) que é ESTA União Europeia. Eu fui contra a entrada na CEE e, mais tarde, contra a adesão à moeda única. Tive, porém, que me vergar ao voto dos meus compatriotas. Os portugueses votaram em maioria
    em partidos que propunham a adesão à, então, CEE. Mas essa, agora UE, tem a sede em Bruxelas e Estrasburgo, não em Berlim!
    Já nem o horroroso Tratado de Lisboa, vulgo Constituição Europeia ( " Porreiro, pá!" ) querem respeitar! Já não "lhes" chega! Querem levar tudo de roldão, como um bulldozer! Mesmo aquilo que defendiam há pouco tempo atrás! Não! Ou OUTRA Europa ( a dos povos e não a do big capital ) ou o retorno ao estado-nacão. Está na cara que isto não serve a nenhum dos "PIGS". E os outros, os que parecem estar melhor, estão apenas em "waiting-list" porque para o capital é: "expand or dye"! E, claro, preferem "expand"...
    À nossa custa! Já concluí, numa análise que eu chamaria, "de classe", que TUDO, mas mesmo tudo, o que for bom para "eles" é mau para mim ( e para a classe onde me integro ). E vice-versa.

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  6. Partilho a opinião de Rogério Pereira, efectivamente a opinião pública está nas mãos dos media controlados pelos grandes grupos económicos. Humildemente a tentativa última deste blogue é desmontar o que é dito nesses media oficiais.

    Somos cada vez mais a perceber os meandros dessa elite, e penso que José Sousa Silva e Devir têm razão, devemos acreditar que uma mudança é possível, não penso é que infelizmente essa se fará com o voto, pois esse é manipulado por esses media e as alternativas na nossa "democracia" resume-se a uma alternativa de poder, para nos fazer crer na mudança, entre um "bloco central" que não passa de mais do mesmo.

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